A ascensão e a transformação da Sharp: como uma das marcas mais famosas da eletrónica mudou ao longo das décadas
Durante muitos anos, a Sharp foi uma das marcas mais reconhecidas pelos consumidores quando o assunto era eletrónica. Os seus televisores, videocassetes, aparelhos de som, micro-ondas e calculadoras marcaram gerações e fizeram parte de milhares de lares, especialmente entre as décadas de 1980 e 1990.
Apesar da enorme popularidade, poucas pessoas conhecem a curiosa trajetória da empresa. A história da Sharp envolve duas realidades distintas: a fabricante japonesa que conquistou espaço no mercado mundial e a operação brasileira, que utilizou a mesma marca durante décadas de forma independente. Enquanto uma conseguiu adaptar-se às mudanças da indústria tecnológica, a outra acabou desaparecendo após enfrentar dificuldades económicas.
Neste artigo, conheça a origem da Sharp, os motivos que levaram ao declínio da empresa no mercado de eletrónicos de consumo e como a marca continua presente atualmente.
O início da Sharp no Japão
A história da Sharp começou em 1912, em Tóquio, quando o empresário Tokuji Hayakawa fundou uma pequena empresa dedicada à produção de artigos metálicos.

O primeiro grande sucesso surgiu com uma inovação bastante simples para a época: uma lapiseira mecânica que dispensava o uso de apontador. O produto recebeu o nome de Ever-Ready Sharp Pencil, tornando-se tão popular que inspirou a mudança do nome da empresa para Sharp.
A palavra “Sharp”, que significa “afiado” em inglês, fazia referência justamente ao facto de a lapiseira manter sempre a ponta pronta para escrever.
A entrada no setor da eletrónica
A partir da década de 1920, a empresa começou a investir em pesquisas relacionadas à tecnologia de rádio, um mercado que ainda dava os primeiros passos no Japão.
Com o passar dos anos, a Sharp ampliou significativamente o seu portefólio de produtos.
Entre os principais lançamentos estiveram:
- rádios;
- televisores;
- calculadoras eletrónicas;
- aparelhos de ar-condicionado;
- fornos micro-ondas;
- ventiladores;
- equipamentos de áudio;
- videocassetes;
- fitas cassete.
Um marco importante aconteceu em 1953, quando a empresa lançou o primeiro televisor fabricado no Japão, consolidando a sua posição como uma das referências da indústria eletrónica do país.
O crescimento internacional
Durante décadas, a Sharp expandiu as suas operações para diversos mercados e tornou-se uma das fabricantes mais importantes do setor.
Além dos eletrodomésticos, a empresa passou a investir fortemente em tecnologias ligadas à imagem e aos ecrãs eletrónicos, área que se transformaria no seu principal diferencial nos anos seguintes.
Já nos anos 2000, a fabricante era considerada uma das maiores especialistas mundiais em painéis LCD, controlando praticamente todas as etapas do processo de desenvolvimento e produção dessas telas.
Essa especialização permitiu que a empresa permanecesse competitiva mesmo quando a concorrência no segmento de televisores começou a aumentar.
A perda de espaço no mercado
Embora continuasse inovando, a Sharp enfrentou grandes dificuldades a partir dos anos 2000.
O mercado de eletrónicos tornou-se muito mais competitivo, com o surgimento de novos fabricantes e mudanças no comportamento dos consumidores.
Mesmo lançando produtos importantes, como a linha Aquos e um dos primeiros telemóveis equipados com câmara integrada, a empresa perdeu participação em vários segmentos.
Outro fator que contribuiu para essa situação foi o aumento do número de fabricantes de painéis LCD, reduzindo a vantagem competitiva que a Sharp possuía durante anos.
Como consequência, a empresa passou por:
- reestruturações internas;
- redução de custos;
- demissões;
- reorganização das operações.
A aquisição pela Foxconn
A maior mudança na história recente da Sharp ocorreu em 2016.

Naquele ano, a fabricante japonesa foi adquirida pela Foxconn, empresa taiwanesa conhecida mundialmente pela produção de equipamentos eletrónicos para diversas marcas.
O negócio foi fechado por aproximadamente 3,5 mil milhões de dólares, embora o valor inicialmente previsto tenha sido reduzido após a descoberta de despesas que não haviam sido informadas antes da conclusão da negociação.
Desde então, a Sharp passou a operar sob a administração da Foxconn, iniciando uma nova fase da sua trajetória.
A curiosa história da Sharp no Brasil
Enquanto a Sharp crescia no Japão, uma história completamente diferente acontecia no Brasil.
A Sharp do Brasil foi criada em 1969, quando o empresário Matias Machline recebeu autorização para utilizar oficialmente a marca no país.
Apesar do nome, a empresa brasileira funcionava de forma independente da fabricante japonesa, desenvolvendo as suas próprias operações e estratégias comerciais.
Durante muitos anos, poucos consumidores sabiam dessa diferença.
Uma das gigantes da indústria nacional
A Sharp brasileira rapidamente tornou-se uma das principais fabricantes de eletrónicos instaladas na Zona Franca de Manaus.
A empresa destacou-se em diversos segmentos, produzindo equipamentos bastante populares entre os consumidores brasileiros.
Entre os principais produtos estavam:
- televisores;
- videocassetes;
- aparelhos de som;
- calculadoras eletrónicas;
- filmadoras.
O grupo também diversificou as suas atividades, criando novas empresas voltadas para tecnologia e informática.
Entre elas destacou-se a SID Informática, que ganhou reconhecimento no setor de automação bancária.
Outro projeto marcante foi o lançamento do HotBit, um computador compatível com o padrão MSX, desenvolvido no Brasil durante a década de 1980.
O declínio da operação brasileira
Apesar do sucesso alcançado ao longo de vários anos, a Sharp brasileira enfrentou sérias dificuldades durante a abertura económica promovida pelo governo brasileiro no início da década de 1990.
Com a entrada de fabricantes internacionais no mercado nacional, a concorrência aumentou significativamente.
Além desse novo cenário, a empresa também sofreu um duro golpe após a morte de Matias Machline, em 1994.
Sem conseguir recuperar a competitividade, a Sharp do Brasil entrou em concordata no ano 2000.
Dois anos depois, a falência foi oficialmente decretada, encerrando uma das trajetórias mais conhecidas da indústria eletrónica brasileira.
A Sharp ainda existe?
Embora já não tenha o mesmo destaque de décadas atrás, a Sharp continua em atividade.
Atualmente, a empresa japonesa mantém operações sob o controlo da Foxconn e apresenta resultados financeiros positivos em alguns segmentos.
Grande parte das atividades concentra-se atualmente em áreas corporativas e na produção de equipamentos especializados.
Entre os principais mercados em que continua presente estão:
- painéis e displays;
- impressoras multifuncionais;
- soluções empresariais;
- telas interativas;
- alguns eletrodomésticos, dependendo da região.
Já a antiga Sharp brasileira deixou definitivamente de existir.
Após a falência, os direitos relacionados à marca passaram por mudanças até que, em 2011, ocorreu a unificação definitiva com a empresa japonesa.
Desde então, a presença da Sharp no Brasil passou a estar praticamente voltada ao mercado empresarial, oferecendo equipamentos desenvolvidos pela fabricante japonesa.
Como a marca mudou ao longo do tempo
A história da Sharp demonstra como empresas tradicionais precisam adaptar-se constantemente às transformações do mercado tecnológico.

Enquanto a fabricante japonesa conseguiu sobreviver graças à experiência acumulada na produção de displays e soluções corporativas, a operação brasileira não resistiu ao aumento da concorrência internacional e às mudanças económicas que marcaram o país na década de 1990.
Embora tenha perdido o protagonismo entre os consumidores, o nome Sharp continua presente em diferentes segmentos, ainda que de forma bastante diferente daquela que marcou gerações.
Resumo
Poucas marcas possuem uma trajetória tão singular quanto a Sharp. O sucesso alcançado tanto no Japão quanto no Brasil foi resultado de décadas de inovação e da forte presença nos lares de milhões de consumidores.
No entanto, as mudanças na indústria eletrónica transformaram completamente o posicionamento da empresa. A Sharp japonesa conseguiu reinventar parte dos seus negócios e permanece ativa, enquanto a operação brasileira tornou-se parte da história da indústria nacional.
Mesmo distante do auge vivido nas décadas passadas, a marca continua sendo lembrada como um dos maiores símbolos da evolução dos equipamentos eletrónicos e da popularização de produtos que marcaram uma geração inteira.
