Apenas 3% das tarefas são amplamente automatizadas com IA, revela estudo sobre o Gemini
A crescente adoção da inteligência artificial no ambiente profissional tem levantado debates sobre o futuro do emprego e o impacto das novas tecnologias nas empresas. Entre as maiores preocupações está a possibilidade de sistemas de IA substituírem trabalhadores em larga escala. No entanto, uma nova pesquisa divulgada pelo Google apresenta um cenário diferente daquele que muitos imaginam.
O levantamento mostra que o Gemini é utilizado principalmente como uma ferramenta de apoio às atividades diárias, e não como um mecanismo de automação total do trabalho. Os dados indicam que a maior parte das pessoas recorre à IA para obter informações, esclarecer dúvidas ou acelerar determinadas tarefas, enquanto a substituição completa de funções continua a ser uma realidade limitada.
Pesquisa aponta uso predominantemente auxiliar da IA
O estudo realizado pelo Google analisou milhões de interações feitas com o Gemini através da metodologia ATLAS (Activity, Task, Landscape and Adoption Study). Ao todo, foram examinadas cerca de 14,65 milhões de consultas realizadas em plataformas que disponibilizam o modelo de inteligência artificial.
Os resultados revelam que apenas 3% dos casos analisados correspondem a situações em que a IA é utilizada de forma intensiva, desempenhando mais de 75% das tarefas envolvidas numa determinada actividade.
Em contraste, aproximadamente 75% das interações consistem em consultas simples, nas quais os utilizadores procuram apoio para executar ou compreender uma tarefa específica.
Isso reforça a ideia de que o Gemini funciona sobretudo como um recurso complementar, ajudando profissionais a tomar decisões ou resolver problemas, em vez de assumir completamente as suas funções.
Automatização total continua a ser pouco frequente
Outro dado relevante do estudo mostra que apenas 10% das conversas relacionadas com actividades cognitivas têm como objetivo automatizar completamente determinadas tarefas.
Na prática, isso significa que, na maioria das situações:
- Os profissionais continuam responsáveis pelo planeamento das actividades;
- A inteligência artificial auxilia na execução de partes do processo;
- As decisões permanecem sob responsabilidade humana.
Este comportamento demonstra que a IA é utilizada para aumentar a produtividade, e não necessariamente para eliminar a participação das pessoas no trabalho.
A maioria das consultas nem sequer está ligada ao emprego
Um dos resultados mais curiosos da pesquisa é que o Gemini é utilizado muito além do ambiente profissional.

Segundo o levantamento, 86% das interações analisadas envolvem actividades gerais do dia a dia, e não tarefas relacionadas com o trabalho.
Entre os temas mais comuns estão:
- Dicas de culinária;
- Sugestões de limpeza doméstica;
- Informações sobre serviços públicos;
- Esclarecimento de dúvidas variadas do quotidiano.
Este dado mostra que a utilização da inteligência artificial está fortemente integrada na rotina das pessoas, funcionando como uma ferramenta de consulta para diferentes necessidades.
Debate sobre substituição de trabalhadores continua intenso
Apesar dos resultados apresentados pelo Google, o receio de que a inteligência artificial provoque perda de empregos continua presente em diversos sectores.
Nos últimos anos, várias empresas anunciaram demissões em larga escala, muitas vezes associadas às mudanças provocadas pelas novas tecnologias e pela automatização de processos.
De acordo com dados da plataforma Layoffs.fyi, as empresas de tecnologia já registaram mais de 120 mil cortes de postos de trabalho.
Entre os casos recentes destacam-se:
- A Microsoft anunciou cerca de 4,8 mil demissões, correspondentes a aproximadamente 2,1% da sua força de trabalho mundial;
- A Amazon realizou anteriormente um corte de cerca de 30 mil funcionários, afirmando que o mercado atravessa um período de rápidas transformações;
- A Meta também promoveu reduções significativas no número de colaboradores.
Esses acontecimentos alimentaram a percepção de que a inteligência artificial estaria a substituir profissionais de forma acelerada.
Estudos sugerem que nem todas as demissões ocorreram por causa da IA
Embora muitas empresas tenham relacionado as suas reestruturações ao avanço tecnológico, pesquisas divulgadas anteriormente indicam que a realidade pode ser mais complexa.
Um estudo publicado em fevereiro apontou que diversas organizações utilizaram a inteligência artificial como justificativa para cortes que já estavam planeados, mesmo sem possuírem soluções automatizadas capazes de substituir efectivamente os trabalhadores.
Esse contexto reforça a importância de analisar cuidadosamente os dados antes de concluir que a IA é responsável directa pela redução de postos de trabalho.
Google não encontrou evidências de substituição generalizada
Segundo a análise apresentada pela empresa, os dados recolhidos não demonstram um nível de automatização suficiente para justificar a substituição em massa de profissionais por sistemas baseados em inteligência artificial.
Em diversas áreas técnicas, por exemplo, o Gemini é utilizado apenas como ferramenta de consulta.
Entre alguns exemplos mencionados estão profissionais ligados a:
- Instalações eléctricas;
- Construção civil;
- Actividades técnicas especializadas.
Nestes casos, a IA serve para esclarecer dúvidas específicas ou fornecer apoio durante a execução do trabalho, sem assumir completamente a responsabilidade pelas tarefas.
Estudo possui limitações importantes
Apesar da dimensão da pesquisa, existem aspectos que não foram contemplados.
Segundo informações destacadas pelo Axios, o levantamento não inclui dados provenientes das versões Gemini Enterprise e Workspace, destinadas ao ambiente empresarial.
Como esses acessos são privados, não foi possível medir o nível de automatização existente dentro dessas plataformas.
Por isso, é possível que algumas aplicações profissionais da inteligência artificial não tenham sido consideradas na análise.
Utilização cresce entre profissionais com maior rendimento
Outro ponto identificado pela pesquisa diz respeito ao perfil dos utilizadores.
O Google observou que o uso da inteligência artificial tende a ser mais elevado entre profissionais que ocupam cargos de liderança e vivem em regiões com maior poder económico.
Os dados indicam que existe um aumento de aproximadamente 2,5% na utilização da IA para cada crescimento de 1% na faixa salarial.
Embora o estudo não explique as razões para essa diferença, os números sugerem uma maior adopção da tecnologia entre profissionais com funções estratégicas.
Algumas áreas apresentam utilização muito superior
Embora o uso intensivo da IA seja relativamente raro, determinadas profissões destacam-se pela elevada adopção da tecnologia.
Os casos de maior automatização concentram-se sobretudo em actividades relacionadas com:
- Programação;
- Estatística;
- Processamento matemático;
- Outras funções altamente técnicas.
Mesmo nesses sectores, o estudo mostra que apenas uma pequena parcela das actividades depende fortemente da inteligência artificial.
IA complementa o trabalho humano em vez de o substituir
Uma das principais conclusões da pesquisa é que a inteligência artificial continua a desempenhar um papel de apoio às actividades profissionais.
Segundo o Google, cerca de 80% dos trabalhadores nos Estados Unidos já possuem pelo menos 10% das suas tarefas influenciadas pela IA.
Contudo, essa influência não representa uma automatização completa dos processos nem demonstra capacidade suficiente para justificar uma substituição generalizada de profissionais por modelos de linguagem.
Na prática, a tecnologia tem sido utilizada para aumentar a eficiência, facilitar pesquisas, organizar informações e acelerar algumas etapas do trabalho, mantendo os seres humanos responsáveis pelas decisões e pela execução das actividades mais complexas.
Conclusão
O estudo divulgado pelo Google oferece uma visão mais equilibrada sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Apesar do crescimento constante do uso do Gemini, os dados indicam que a tecnologia ainda funciona principalmente como uma ferramenta de apoio, e não como um substituto directo da mão-de-obra humana.
A reduzida percentagem de casos em que a IA executa a maioria das tarefas demonstra que a participação humana continua a ser essencial em grande parte das profissões. Ao mesmo tempo, o aumento da utilização dessas ferramentas evidencia que elas já fazem parte da rotina de milhões de pessoas, tanto no ambiente profissional como nas actividades do dia a dia.
À medida que a tecnologia evolui, o desafio para empresas e trabalhadores será encontrar formas de integrar a inteligência artificial de maneira produtiva, aproveitando os seus benefícios sem perder de vista o papel indispensável das competências humanas.
